sexta-feira, 13 de abril de 2012

O Difícil Retorno

Muita gente me pergunta a respeito da minha experiência na Palestina. Desde que cheguei, tenho tido muitas dificuldades em falar sobre isso. Falar dos Palestinos significa lembrar de pessoas que hoje são muito queridas e que estão sofrendo pelo simples fato de existir.  Quando me propus a ir até lá, eu sabia que quase nada eu poderia fazer para mudar os fatos, que a minha presença seria um mero paliativo; passar por esse processo, entretanto, é totalmente diferente de saber que isso ocorreria.  

Ler sobre a Palestina se tornou quase uma tortura. Jornais e revistas retratam o conflito de maneira totalmente equivocada. Primeiro, que eles mostram correspondentes estacionados em Tel Aviv, falando com propriedade do que se passa na Cisjordânia ou em Gaza1. Acontece que, morando em Tel Aviv, eles provavelmente só escutam as versões oficiais do governo israelense ou das organizações israelenses, que são, na sua maioria, totalmente enviesadas, para não dizer anti-palestinas. Seria o mesmo que colocar um repórter fixo em Gaza. Além disso, estar em Tel Aviv significa que você não tem qualquer contato com os territórios ocupados palestinos; existe não só uma barreira física entre eles2, como uma barreira psicológico. Só quem já foi à Palestina e a Israel sabe do absurdo que é ter um correspondente internacional que não transite entre as duas áreas.

Não sejam ingênuos de pensar que eles mesmos não sabem disso. Se eles não o fazem, é porque não querem mostrar a totalidade do conflito. Procure a respeito da libertação do soldado israelense Gilad Shalit, que você verá o nome dele estampado mil vezes, Enquanto os milhares de palestinos, inclusive crianças, que estavam e ainda estão em prisões israelenses,  não tem nome algum. Isso porque eles cometeram crimes bárbaros? 40% da população masculina palestina já passou pela cadeia ou segue encarcerada; nenhuma sociedade que possui um número tão grande de criminosos. Os palestinos não são diferentes nem de nós, nem dos israelenses3. Eu conheço gente que foi presa por hastear a bandeira palestina em cima de uma árvore; conheço até gente que foi presa e nem sabe o porquê (nesse caso, conheço muita gente).

Esses repórteres nunca conheceram (reparem que conhecer não significa ir lá pra dizer foi) a Palestina. Não existe a possibilidade de qualquer ser humano honesto ir à Palestina e retratar o conflito como uma guerra entre iguais, como eles fazem. Aliás, retratar o conflito como se fosse entre iguais já seria um avanço. Geralmente, esses repórteres tratam a questão como um conflito entre civilizados e incivilizados, em um cenário onde eles, os palestinos, atacaram os israelenses e, então, estes fazem uso da força para se proteger. Os palestinos lançam pedras e os israelenses se defendem com gás, armas, cães, bombas. Por que será que os palestinos lançam pedras? São malucos? Por que eles simplesmente odeiam os israelenses? Por que só os israelenses têm motivo para atacar? Pensem nisso.

E qual é o meu poder vendo todos esses absurdos? Nenhum. O máximo que eu posso fazer é escrever nesse blog, esbravejar minha raiva e minha revolta contra o Estado Israelense, contra a cobertura do conflito, etc... Que poder tenho eu? O problema que essa limitação de poder se reflete nos meus amigos que estão lá na Palestina, respirando gás lacrimogênio, tendo suas terras confiscadas, suas casas derrubadas, seus entes queridos presos, mortos. Assim a vida continuará, porque pessoas como a Nathalia não tem poder nenhum. Resta rezar, para aqueles que acreditam.


1Território palestino ocupado
2Um muro de 8 metros que não te deixa nem ver o outro lado


Esse é um vídeo feito em Kafr Qaddum. A mesma vila que eu tanto fui e acompanhei durante o meu período por lá. O cachorro do exército israelense ataca um palestino, e um outro palestino enfrenta os soldados para ajudar. Esse homem se chama Murad. Ele é uma pessoa muito querida por todos, e por esse vídeo já dá para se ter uma ideia do porquê. No final da gravação é possível ver que ele foi acabou sendo preso. A alegação era a de que Murad tinha atacado um soldado. Como as imagens são muito claras, o exército não teve como sustentar sua prisão, e ele acabou sendo liberado uma semana depois. Um caso raríssimo, uma vez 99% dos presos palestinos são condenados. Ver esse vídeo daqui do Brasil foi uma das experiências emocionais mais difíceis que eu já tive.



quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

"Nós escolhemos quem deve se retirar"


Por volta das nove da noite recebemos uma ligação de um dos nossos contatos dizendo que os colonos judeus do assentamento israelense de Qedumim tinham entrado com tratores nas terras palestinas de Kafr Qaddum (o próprio assentamento é construído sobre terras confiscadas de Kafr Qaddum) e haviam começado a planar a terra e a plantar oliveiras. Como era noite nos foi aconselhado que esperássemos até o dia seguinte. Antes não tivéssemos esperando. Pela manhã o pedido era para que fossemos direto para lá porque o exército havia chegado e alguns palestinos haviam sido agredidos. As próximas cenas foram das mais inacreditáveis da minha vida.

Quando chegamos ao local a situação era a seguinte: de um lado, protegendo a entrada do assentamento, estavam 20 soldados e dois seguranças particulares dos colonos israelenses, todos carregando seus M-16.  Do outro lado três palestinos estavam sentados na terra em frente aos soldados como forma de protesto, três mulheres palestinas estavam sentadas um pouco distante, e mais umas quinze pessoas incluindo internacionais e a imprensa palestina se encontravam lá para noticiar e oferecer presença protetiva para os donos da terra, todos completamente desarmados.

Depois de uns 15 minutos um homem pertencente à Autoridade Palestina chegou com os papéis que provavam a posse da terra. O soldado encarregado simplesmente lhe disse: vocês tem que entrar na justiça para provar que essa terra é de vocês, essa terra é do Estado de Israel.

Nesse meio tempo me foi dito que dois palestinos haviam sido agredidos anteriormente pelos soldados. Um homem por volta de seus 60 anos levou um golpe na cabeça, começou a sangrar e teve que ser encaminhado para o hospital. A segunda foi uma senhora de mais ou menos 70 anos. Ela foi agredida por uma soldada mulher ao tentar proteger o homem que estava apanhando do outro soldado.

Não bastasse isso, depois de mais meia hora, seis homens desceram de uma caminhonete com enxadas e picaretas. O meu pensamento foi: eu não acredito que os colonos voltaram. Pois sim, eram eles. Os palestinos começaram a gritar e os soldados foram para cima dos... palestinos! Enquanto os colonos começavam a trabalhar na terra e a plantar os soldados faziam uma barreira de isolamento para protegê-los! Sim minha gente. Os verdadeiros donos da propriedade tiveram que ficar assistindo os colonos israelenses trabalharem em suas terras com a proteção do exército.  Eu que pensava que grilagem de terra era o fim do mundo. Na Palestina nem falsificar os papéis é preciso, aqui basta só você ser judeu, acordar um dia querendo cultivar a terra dos outro e pronto! A terra é sua com o respaldo do Estado Israelense! Justiça divina é outra coisa!

Durante a encenação (digo encenação porque foi uma clara demonstração de quem tem o poder, não fazia nenhum sentido eles começarem a cultivar a terra naquele momento) o exército declarou o local onde estávamos como “área militar restrita” (ou algo como isso). Os palestinos responderam que só sairiam se os colonos também saíssem. A resposta foi: nós escolhemos quem deve se retirar. 

No momento da chegada. Essa indivídua da esquerda foi a responsável pela agressão a uma senhora de seus 70 anos. 

Marcas do trator. Acima se vê que foi aberto um pedaço da cerca para sua passagem.


Três mulheres da vila de Kafr Qaddum protestam sentadas sobre suas terras. Uma delas foi agredida no braço. 

Um dos homens da vila de Kafr Qaddum protesta em frente aos soldados israelenses. 

Colonos israelenses chagam ao cenário já tenso. Eles carregam ferramentas agrícolas. É possível perceber que eles organizam sua entrada antes de realmente "aparecer" para os palestinos. 

Depois de articular sua entrada eles começam a caminhar para o lugar onde os palestinos protestavam.

Reparem que os colonos já estão no canto à esquerda. Os homens de fuzil e trajes civis são seus "seguranças particulares". E os outros de uniforme verde-oliva são os seus "seguranças" pagos pelo estado. Eles formam uma barreira para impedir que os palestinos se aproximem dos colonos israelenses. 

Os colonos israelenses e seus seguranças particulares. É possível ver as marcas de trator no chão. 


Os seguranças se posicionam para garantir o cultivo tranquilo dos colonos em terra palestina. 

Neste momentos eles já estão mais afastados dos palestinos e dos soldados. 

A seta aponta para onde os colonos estão. Reparem que em seguida estão seus seguranças, e logo depois os soldados que fazem uma barreira para impedir que os palestinos avancem.

E os colonos cultivam tranquilamente a terra alheia. Um fato curioso é que eles plantaram algumas oliveiras. Ao que tudo indica o azeite de oliva terá o mesmo destino do hummus e do faláfel. Para saber mais: http://electronicintifada.net/blogs/ali-abunimah/hummus-and-falafel-are-already-israeli-now-theyre-coming-palestines-olive-oil-too


Todo o episódio foi filmado e fotografado pelos soldados israelenses. Só para vocês não esquecerem que a senhorita à esquerda foi a que agrediu uma senhora de idade para ser sua avó.


Aqui se vê mais claramente a distinção entre os soldados e os seguranças dos colonos israelenses, de trajes civis.

Momento em que outros palestinos e internacionais se juntam ao protesto e sentam-se na terra em frente aos soldados. À direita a imprensa palestina. 

Palestinos protestam sentados em frente aos soldados israelenses. 

Momento em que os palestinos apresentam os papéis que comprovam a posse da terra e o soldado lhes diz que eles devem agora entrar na justiça para comprovar o que já está escrito. Segundo ele "essa terra é do Estado de Israel".

E a filmagem continua... Algumas vezes essas filmagens são usadas para incriminar os palestinos ou simplesmente para treinar os próximos soldados em como agir (ou não) em situações que envolvam colonos. 





quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Quando a morte não é o fim, é a continuidade.


Passeando alegremente pelas ruas de Nablus em busca do meu primeiro knafe (doce típico dessa região da Cisjordânia) tive meus devaneios açucarados perturbados por uma foto antiga, num pôster novo e bastante grande. Olhei para um dos palestinos que trabalha conosco, e perguntei se o homem na foto havia sido solto na troca de prisioneiros pelo soldado israelense Gilad Shalit. Ele respondeu:

- Não, esse é um mártir que foi liberado em agosto.

- Como assim?

- Hafiz Abu Zant morreu em combate em 1976, mas seu corpo foi recolhido e mantido pelos israelenses até agora (Ago. 2011).

Demorei bastante para entender o que me havia sido dito. Não passava pela minha cabeça a ideia de manter os corpos das pessoas. Ingenuidade a minha pensar que morreu está morrido, acabou. Fiquei tão impressionada que comecei a pesquisar.

Bom, a história é a seguinte, o governo israelense se dá o direito1 de manter os corpos daqueles indivíduos que eles consideram “terroristas”2. Tanto aqueles que foram mortos em combate ou emboscada, quanto os que morreram durante o cumprimento de sua pena, ou seja, morreram na prisão. Estes são enterrados nos tais “cemitérios de números” que ficam dentro do território israelense e são inacessíveis a qualquer pessoa, seja ela da família ou não. Só alguns militares israelenses tem acesso aos registros que mostram qual número corresponde a tal pessoa. Lá os corpos estão enterrados a apenas 50 cm da superfície e, pelos relatos que tive acesso, parece que não existe nenhum cuidado contínuo. Inclusive um dos dois únicos corpos liberados até hoje (o outro foi Hafiz Abu Zant, citado acima), Mashour Talab Saleh, precisou passar por uma longa triagem de DNA para separá-lo dos demais corpos que estavam misturados na mesma cova.  

Até o dia 15 de janeiro de 2011 de acordo com o coordenador da campanha para a devolução dos corpos, 345 corpos estão em poder dos israelenses. Dentre eles 24 são cidadãos jordanianos, 2 são marroquinos, e os outros são todos palestinos e palestinas (pude contar no material que me foi dado oito mulheres).

O meu ponto aqui não é discutir quem é terrorista ou não. Porque não é essa a questão, a questão é: o indivíduo morreu, quem sofre com a falta do corpo é a família. Que culpa tem a família nessa história? Porque prolongar o sofrimento das pessoas por anos? Ainda mais numa situação tão tensa como essa? Eu com meus bons sentimentos não consigo entender essas coisas. Aliás, racionalmente eu entendo que eles queiram punir as famílias pelo que os seus filhos fizeram, mas pra mim existe limite moral, não aceito3.


1 O mantenimento dos corpos e a forma como eles são mantidos pelo governo israelense violam algumas convenções internacionais como por exemplo: Conveção de Haia de 1907; 1ª Convenção de Genebra de 1949: artigo 15, artigo 17; 2ª Convenção de Genebra de 1949; 3ª Convenção de Genebra de 1949; 4ª convenção de Genebra de 1949; Primeiro Protocolo Adicional da Cruz Vermelha Internacional: artigo 34; Segundo Protocolo Adicional da Cruz Vermelha Internacional.

2 Não vou entrar no mérito do que é considerado terrorista ou não pelo governo israelense porque qualquer palestino lutando ou pensando em lutar é considerado terrorista por eles, mesmo que seja defendendo seus próprios direitos. Vale lembrar que muitos dos que lutaram por Israel e mataram pessoas são considerados heróis e enterrados com horarias.



Knafe, delícia maravilhosa!

Enterro simbólico de Hafiz Abu Zant em Nablus, agosto 2011.  

Enterro simbólico de Hafiz Abu Zant em Nablus, agosto 2011.  

Abdul Fattah Mohammed Ali Badeer, de Tulkarm. Morto em 1975 perto de Jericó, sua mãe morreu no final de 2011 sem concretizar o sonho de enterrar o próprio filho.





terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O desafio de plantar e colher na Palestina.


A região de Tulkarem é bastante fértil, por aqui são incontáveis as plantações de oliveiras, laranjas, tangerinas e estufas para a produção de frutas, verduras e legumes de diversos tipos (Não! Não tem nada deserto por aqui! O clima é mediterrâneo). Muitos dos habitantes dessa parte da Palestina vivem da produção de suas terras, aqui não existem supermercados (pelo menos nessa região que estou), mas os pequenos mercados e feiras, bastante parecidas com as que temos no Brasil, funcionam a todo vapor todos os dias da semana. 

Como tudo na vida de um palestino é mais difícil, também é difícil plantar e colher em algumas situações. Por exemplo: se a pessoa não teve sua terra confiscada para a construção de algum assentamento judeu, ou para a construção do famoso muro (o que é a pior das possibilidades, porque você não verá mais nem a terra nem qualquer dinheiro por ela), ela pode ter terras próximas a esses assentamentos ou bases militares israelenses. Nesses casos são duas as dificuldades: a primeira são os próprios colonos que não raramente atacam as pessoas, cortam e/ou colocam fogo nas plantações e nas propriedades das redondezas; a segunda dificuldade são os soldados, que para “proteger os colonos”, amedrontam os palestinos, chegando até a prendê-los vez ou outra para que eles desistam de tentar cultivar aquele pedaço de terra próximo a esses locais. Isso também acontece porque Israel se utiliza de uma lei otomana de 1858 para confiscar essas terras. A lei que me refiro diz que toda terra não cultivada passa a pertencer ao Estado. 

Outra dificuldade bastante comum aqui na região que estou são as terras que ficaram entre a linha verde e o muro (essa área é chamada de Seam Zone). A linha verde que seria a fronteira entre o Estado de Israel e o Estado Palestino é ignorada pelo governo israelense, mas reconhecida por 126 dos 196 países membros das Nações Unidas (inclusive o Brasil). Cerca de 9,4% da Cisjordânia1 se encontra nessa situação. 25.000 palestinos vivem entre o muro e a linha verde, o que significa que alguns estão completamente isolados de suas vilas. Nesses casos é preciso permissão para receber visitas (já que elas necessariamente precisarão passar pelo portão) e até mesmo para sair de casa e voltar.

Um dos trabalhos que fazemos aqui é monitorar alguns desses portões agrícolas que permitem que os fazendeiros acessem suas terras no Seam Zone. Esses portões podem ser de três tipos: o diário que abre três vezes ao dia todos os dias da semana (os horários de abertura e a duração que o portão permanece aberto variam de portão para portão, mas o mínimo é 15 min. e o máx. é de uma hora); o sazonal que abre diariamente durante o período de colheita das azeitonas (do final de outro ao final de novembro); e o sazonal semanal que abre somente de uma a três vezes na semana, três vezes ao dia, somente durante o período de colheita. Para acessar essas terras não basta somente ser dono da propriedade ou ser contratado para trabalhar nela, primeiro é preciso preencher um formulário comprovando o seu status e esperar a permissão do governo israelense para cruzar o portão.

De acordo com o órgão palestino responsável por negociar com os israelenses a respeito das permissões, este ano de 2011, do dia 1º de novembro até o dia 13 de dezembro, foram solicitadas 6535 permissões aqui em Tulkarm, das quais foram concedidas somente 3312, ou seja, cerca da metade dos pedidos são recusados. Segundo o escritório palestino para assuntos civis, as pessoas que só trabalham mas não são os donos da terra, tem dificuldades com as permissões, da mesma maneira que aquelas que possuem propriedade em conjunto com outras pessoas. Nesse caso é preciso que somente um dos donos se responsabilize pela terra, e é somente essa pessoa que poderá ter acesso à propriedade, o restante dos donos são impedidos de passar pelo portão. Só para lembrar a vocês que o muro, que é ilegal de acordo com a Corte Internacional de Justiça, separa terras palestinas de terras palestinas.

- o problema não é exatamente o portão, o problema é a liberdade. Antes eu vinha com a minha família fazer piquenique, convidava os amigos para passar o fim de semana. Agora não posso mais fazer nada, nem convidar ninguém para tomar um chá ou café.  (Jalal nos disse isso após tentar insistentemente convencer os soldados israelenses a nos deixar passar. Ele ficou extremamente chateado quando o comandante impediu que visitássemos sua plantação).

1 Constituem a Palestina os territórios de Gaza, da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental.

Feira em Tulkarm

Feira em Tulkarm

Portão agrícola.

Portão agrícola

Soldado israelense alisa a terra depois de fechar o portão. Eles fazem isso para ter certeza que ninguém passou por ali depois dos soldados terem ido embora. Os portões são abertos por no máximo uma hora, depois de fechados eles só serão abertos novamente na hora do almoço.

Atrás da cerca se vê as terras que estão no Seam Zone. Os tetos brancos são estufas. 

Atrás da cerca se vê as terras que estão no Seam Zone. Os tetos brancos são estufas. 

Atrás da cerca se vê as terras que estão no Seam Zone. Os tetos brancos são estufas. 

Estufa com plantação de pimenta.  








segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Continuação da tragédia diária de uma família palestina.


Vou só colocar novamente umas fotos da família que visitamos sempre após as manifestações em Kafr Qaddum. Semana passada os soldados usaram o terraço da casa da família para atirar gás contra os manifestantes. Como eu já disse, essa família está bastante traumatizada, tem muito medo do exército israelense. Quando chegamos para falar com eles a mãe chorava muito, estava bastante assustada e triste. Eu infelizmente só pude dizer: eu espero que tudo isso termine um dia...

Foto tirada do terraço da família. Esses são cartuchos vazios de gás lacrimogênio disparados pelos soldados israelenses no dia 23/12/2011






Reunimos todos os cartuchos que estavam no chão para fazer essa foto. Os três recipientes negros são de gás disparado manualmente. 


Esse tanque de reserva de água foi derrubado pelos soldados israelenses propositadamente. 

Foto do assentamento israelense de Qedumim. E continuam as construções ilegais. Pelo que nos foi informado os israelenses tem trabalhado dia e noite.

A famosa barreira entre o assentamento e a vila palestina. Os protestos tem ocorrido para pedir o seu fim. 

Capsula de gás vista do terraço da família.

Capsula de gás vista do terraço da família.


Foto tirada pelo nosso fiel motorista. Raisa chorava muito e eu não sabia o que fazer. O primeiro impulso foi abraçá-la... e foi o que eu fiz. 

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O meu desejo é que os palestinos possam existir em paz.

No meio do caminho entre a pequena vila palestina de Kafr Qaddum e o assentamento israelense de Qedumim na Cisjordânia existe uma estrada bloqueada e uma casa. É exatamente nesse local que ocorre toda sexta-feira a manifestação pelo fim do bloqueio da rota que leva até Nablus1. O percurso que antes consistia em 1,5 Km é agora de 14 Km, não existe mais um caminho direto, é preciso contornar o assentamento2.

Semanalmente os moradores se reúnem em frente ao bloqueio da estrada e manifestam o seu desejo de passar livremente por ali. Os soldados fazem uma barreira para impedir o acesso ao assentamento, algumas vezes os palestinos atiram pedras, outras não, mas independente de qualquer coisa, sempre tem gás lacrimogênio, seja atirado manualmente seja atirado por uma espécie de arma em que a munição é uma capsula de alumínio que contém o gás3. A manifestação já é um folclore entre os integrantes do programa que participo, todo mundo já vai munido de máscara e cebola, preparado para ser atingido. Nós a acompanhamos a pedido da própria comunidade que sempre diz que quando não há internacionais a repressão é muito mais violenta.

Essa semana, além de participar da manifestação visitamos a casa palestina que fica de frente para o bloqueio, soubemos que a vaca da família havia falecido devido às contínuas doses do gás. Chegando lá a senhora nos abriu um sorriso e nos convidou para entrar, nesse momento nosso interprete não estava presente mas eu logo deduzi que "bakara" significa vaca em árabe; Raisa precisava falar e nós éramos os primeiros a ouvir. A visita tinha sido por causa da vaca, mas descobrimos que além dela algumas galinhas também haviam ido, assim como todas as abelhas da pequena produção de mel que eles cultivavam em casa.

- Como a senhora se sente a respeito das manifestações?

- Eu sofro duas vezes, uma porque as janelas e as portas não são bem vedadas então nós sempre acabamos respirando gás, e outra porque às vezes meus filhos participam da manifestação e eu tenho medo. Outro dia esse (apontando para o mais velho) foi atingido por uma dessas capsulas que eles atiram e teve a perna quebrada com o impacto.

Esses foram os primeiro relatos de cansaço e sofrimento de muitos outros que vieram em seguida. A família que hoje consiste em sete pessoas, o pai, a mãe, três filhas e dois filhos foi sucessivamente visitada pelos soldados israelenses. Uma vez no meio da noite um grupo de soldados invadiu a casa quando todos estavam dormindo. Eles acordaram com um rifle M-16 apontado para suas cabeças. Outra o filho foi preso ao retornar para casa, submetido a horas de interrogatório porque estava caminhando perto de um assentamento, ou melhor, estava perto de sua própria casa. Uma das filhas já foi ameaçada com uma faca no jardim, e a outra após sofrer com as “brincadeiras” dos soldados que ficaram jogando o jipe militar em cima dela para assuntá-la, acabou desistindo da faculdade. Ela não tinha mais coragem de sair de casa sozinha.

A mãe e os filhos estão claramente traumatizados, ela inclusive nos disse que às vezes só anda engatinhando dentro de casa por medo. Os Médicos Sem Fronteiras que possuem uma unidade em Nablus mandam toda semana um psiquiatra para acompanhar principalmente a mãe e o filho mais novo que não conseguem nem mais ver os soldados que ficam paralisados e começam a tremer inteiros.

Eu gostaria de dizer a vocês que esse é um caso isolado, mas não é. Não existe um palestino que eu tenha conhecido aqui que não demonstre uma expressão no mínimo cansada quando perguntando a respeito da ocupação, que não tenha pelo menos uma história para contar de abuso, humilhação e violência por parte ou dos militares ou dos colonos israelenses. É muito nítido que ninguém aguenta mais, os israelenses estão vencendo pelo cansaço e eu acredito que seja mesmo essa a intenção.

1  uma das cidades mais importes ao norte da Cisjordânia
2 todo assentamento israelense em território palestino é ilegal de acordo com o Direito Internacional Humanitário - http://www.diakonia.se/sa/node.asp?node=858
3  essa semana um manifestante foi morto por “tiro” da capsula de gás lacrimogênio. Como se não bastasse a tragédia, os soldados israelenses também presentearam com o mesmo gás as pessoas que foram ao velório do palestino- http://972mag.com/israeli-army-fires-tear-gas-on-mourners-in-nabi-saleh/29447/



                                                                 Preparada para a manifestação de mascara e tampão de ouvido. 

Bem no canto à direita, em frente à manifestação, se vê a casa da família que visitamos. Os telhados vermelhos ao fundo fazem parte do assentamento israelense de Quedumim. 

Nessa foto se vê a casa mais claramente. Essa estrada pela qual caminham os manifestantes é a que está bloqueada.  

As setas indicam a vila de Kafr Qaddum, o assentamento de Qedumim, e o início da estrada bloqueada onde está a casa da família palestina. (fonte: OCHA)

Dois soldados israelenses observam a manifestação de cima da montanha. 

Eu pedi para tirar uma foto da família e eles pediram para tirar uma foto comigo. Ai está. Da esquerda para a direita: A mãe, Raisa, a filha mais nova, eu, a filha mais velha, o pai, e o filho mais novo.